Skip to content. | Skip to navigation

PGR | 4ª CCR | Ano 6 | Número 11 | Fevereiro 2012

Revistas das Aguas

"Se os homens voltassem mais a mente ao que a Natureza está a lhes mostrar, seguindo-a, melhor seria toda gente"
Dante Alighieri - Paraíso, VIII, 142-144
Colabore

A Revista das Águas disponibiliza espaço para críticas, sugestões e artigos para publicação.

clique aqui

Document Actions

O verdadeiro papel do homem nas mudanças climáticas

Juliana Ramalho Barros

verdadeiro_papel

“Paisagem com Tempestade” (Rembrandt, c. 1638)

          Há algumas décadas, parece ter aumentado a preocupação do homem com o meio ambiente ou, melhor, com os recursos naturais disponíveis no planeta. Tais recursos estão permeados por valores que vão além da sua expressão econômica; nisso, a referida preocupação também reflete uma possível perda do controle sobre o natural por parte do homem.
          A grande sociedade industrial tornou-se vítima de suas próprias obras em todo o conjunto de seu espaço e passou, a partir da percepção desse fato, a discutir a situação em questão, tendo em vista que seus arranjos institucionais são baseados no uso cada vez mais intensivo dos recursos naturais, incluindo-se aí a água, resultando em impactos ambientais, seja sobre a superfície ou sobre a atmosfera.
          Muito se fala a respeito da preservação do meio ambiente. Porém, é preciso indagar: o que resta da natureza que ainda possa ser preservado? Numa visão um tanto pessimista, pode-se afirmar que muito pouco. Por isso mesmo parece ser mais apropriada a idéia de recuperação da natureza – levando-se em conta que a natureza original não existe mais.
          Os recursos naturais são, na verdade, sociais. Se forem verdadeiramente naturais, então não são recursos, já que se tornam recursos a partir do momento em que o homem se apropria deles e passa a fazer algum tipo de uso. Desta forma, a questão ambiental é natural, mas também social, econômica e, principalmente, ideológica, o que a faz, então, mais complexa do que se imagina.
          Nesse sentido, por meio deste texto pretende-se provocar algumas reflexões não simplesmente a respeito do meio ambiente e de sua importância, mas, principalmente, sobre a visão que tem dominado a mídia e os centros de pesquisa mundiais no tocante a algumas questões como o uso da água, o aquecimento global e o papel do homem na degradação do planeta.
          Para isso, outras perguntas devem ser aqui lançadas. Será que a Terra está mesmo passando por mudanças tão radicais quanto se imagina? Caso essas mudanças estejam ocorrendo, pode-se mesmo atribuir ao homem toda a responsabilidade por elas? Será o homem tão grandioso a ponto de modificar toda a dinâmica do planeta, a começar pelo Ciclo da Água e pela atmosfera?


A “QUESTÃO AMBIENTAL”

          A chamada questão ambiental só passou a existir a partir do momento em que alguns segmentos da sociedade mundial passaram a se preocupar com a degradação da natureza e com a possibilidade de esgotamento de alguns recursos naturais (ou sociais?).
          Alguns episódios de contaminação do ar e das águas – ocorridos ainda nas décadas de 1950 e 1960 e que começavam a revelar a irracionalidade do modelo de desenvolvimento capitalista – podem ser apontados como os antecedentes de uma crise ambiental, iniciada de forma mais sistemática na década de 1970.
          Em 1972 realizou-se a Conferência de Estocolmo, promovida pela Organização das Nações Unidas, da qual resultou a Declaração de Estocolmo. Foi a primeira vez que a dimensão ambiental foi introduzida na agenda política internacional como condicionadora e até limitadora do modelo tradicional de crescimento econômico e do uso dos recursos naturais no planeta.
          Entretanto, o referido encontro gerou um grande impasse. Antes de esclarecê-lo, lembremo-nos de que a noção de desenvolvimento econômico, à época, estava totalmente atrelada à devastação do meio ambiente, ou seja, não havia possibilidade de crescimento sem a degradação ambiental. Desta forma, ao final da Conferência de Estocolmo, havia dois grupos de países: de um lado, os países desenvolvidos, que pregavam o “desenvolvimento zero” para os países pobres; de outro, os países subdesenvolvidos, com a idéia de “desenvolvimento a todo custo”, alegando que o outro grupo havia atingido seu desenvolvimento destruindo o meio ambiente e que por isso os que ainda não haviam crescido teriam o direito de degradar a natureza para atingir o crescimento econômico e o desenvolvimento que suas populações necessitavam.
          Naquela década a mídia divulgou exaustivamente os problemas ambientais e, baseada em alguns estudos ditos científicos, fez prognósticos catastróficos para o planeta até o final do século XX. Segundo tais previsões, o nível das águas do mar subiria assustadoramente e recobriria cidades inteiras, o ar se tornaria irrespirável nos grandes centros urbanos e os solos atingiriam tal nível de contaminação que haveria fome em todo o mundo. De fato, o ar de muitas cidades está comprometido e há fome em várias partes do mundo, mas esta última está mais relacionada à má distribuição da renda e às monoculturas de exportação do que à contaminação dos solos.
          No ano de 1992, o Brasil sediou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento - CNUMAD, que ficou mais conhecida como Rio-92 ou Eco-92. Ali a preocupação voltou-se para os problemas ambientais globais e surgiu a noção de desenvolvimento sustentável, segundo a qual é possível atingir o desenvolvimento econômico sem degradar o meio ambiente nas proporções até então observadas. Destaca-se aí um olhar para as questões sociais nos países em desenvolvimento.
          A Rio-92 resultou na Agenda 21, que apresenta uma proposta de ação para os próximos anos. No documento, a educação aparece como elemento primordial para se atingirem as metas para o desenvolvimento sustentável. O documento procura assegurar o acesso universal ao ensino básico e, de acordo com seus preceitos, deve-se promover, com a elaboração apropriada das organizações não-governamentais, todo tipo de programas de educação permanente sobre meio ambiente e desenvolvimento, centrando-se nos problemas locais. As indústrias devem estimular as escolas técnicas a incluírem o desenvolvimento sustentável em seus programas de ensino e treinamento. Nas universidades, os programas de pós-graduação devem contemplar cursos especialmente concebidos para capacitar os responsáveis pelas decisões que visem ao desenvolvimento sustentável.
          Na década de 1990, vários foram os fóruns de discussões sobre a temática ambiental, baseados na Agenda 21 e buscando formas de implementação em diversas escalas de atuação, seja no âmbito governamental, seja por parte da própria sociedade civil organizada de diferentes maneiras. Entretanto, parece-nos que a grande maioria das discussões, especialmente as que envolvem ações dos governos, não saiu da esfera teórica para a prática.
          Diante da possibilidade de mudanças climáticas estarem ocorrendo na Terra, representantes de vários países assinaram, em 1997, o Protocolo de Kyoto, que estabelece metas de redução das emissões de gás carbônico na atmosfera por parte dos países desenvolvidos.
          Certos de que os combustíveis fósseis são o grande vilão do aquecimento global, os países que ratificaram o Protocolo de Kyoto – que entrou em vigor em março de 2005 – devem reduzir suas emissões dos gases do efeito estufa (gás carbônico e metano) até 2012. Contudo, já se sabe que tais metas não serão atingidas, uma vez que não condizem com o atual modelo de desenvolvimento econômico e, muito menos, com os interesses das grandes corporações espalhadas pelo planeta.
          Ainda que em 2002 tenha ocorrido uma terceira conferência mundial promovida pelas Nações Unidas para discutir os desafios ambientais do planeta, parece que a questão ambiental deixou de ser o foco das atenções nos anos finais do século XX e no início deste século.
          Os resultados da Rio-92 e da Conferência de 2002 constituem o mínimo denominador comum entre as posições de todas as nações ali presentes e não correspondem às graves necessidades do planeta, que requerem medidas mais drásticas e eficazes. Em função da inexistência de um poder de polícia global legitimamente constituído para assegurar o cumprimento das decisões tomadas na esfera internacional, nenhum dos documentos aprovados tem força imperativa para os países signatários e não há sanções para coibir o descumprimento dessas decisões.
          Além disso, há que se analisar a escala em que os problemas são vistos nesses encontros. O esforço global é válido; porém, as ações devem ser locais, já que são locais as repercussões dos problemas ambientais e dos fenômenos naturais.
          A partir de 2005, a temática ambiental voltou a emergir e passou a ocupar grande espaço na mídia e em debates acalorados nas mais diversas esferas da sociedade. A discussão é válida, mas é preciso analisá-la com atenção, pois parece estar mais ligada à noção de controle da natureza do que ao bem-estar da humanidade.

 

O HOMEM E A NATUREZA: O CASO DO AQUECIMENTO GLOBAL

          A compreensão do elo que o homem estabeleceu com a natureza só é possível se recorrermos ao pensamento iluminista de René Descartes. Consagrado filósofo moderno, Descartes foi o idealizador das condições necessárias ao chamado “desencantamento do mundo”, que não significa sua desacreditação, mas a busca pelo compromisso do homem com sua própria história, sem a influência de princípios e verdades preexistentes, sobretudo aquelas da Idade Média.
          Para o filósofo, a perspectiva da sociedade moderna estava fundamentada na racionalidade como guia da conduta humana, numa fé incontestável na humanidade e no indivíduo. E foi nesse contexto ideológico que surgiu o homem como senhor e possuidor da natureza, sendo capaz de se apropriar dela e de explicar seus fenômenos. Este é, então, o centro das idéias do Iluminismo e da Modernidade.
          Uma das heranças desse período é a idéia de que saber e poder coincidem, sendo capazes de levar à superação de uma passividade do homem em relação à natureza. Ao compreender os fenômenos naturais, o homem sente-se capaz de dominar a natureza, libertando-se da mera contemplação. Levando-se em conta a visão de “natureza hostil”, esta, ao ser personificada, não seria um ser passivo, mas sim material, que reagiria às ações humanas. Por isso é preciso conhecê-la para dominá-la.
          A dominação da natureza e a atual visão de que é preciso preservá-la está relacionada essencialmente à necessidade de sobrevivência da espécie humana, já que a natureza é a fonte de alimentos, remédios e recursos empregados nas diferentes atividades econômicas. A cada dia que passa ficamos mais dependentes dos recursos naturais, ainda que os avanços da ciência tenham permitido a criação de vários substitutos para produtos encontrados, até então, apenas na natureza. Assim, a preservação não é resultante de uma reflexão ética, mas da necessidade de sobreviver.
          Com a herança do pensamento cartesiano e as necessidades de uso dos recursos naturais, o homem acredita que pode prever o futuro e até controlá-lo com sua ciência. Por outro lado, a importância humana é vista de modo tal que somos levados a crer que o planeta está se voltando contra nós, o que é um grande mito, já que a natureza age e reage por conta própria; ela não é um ser vingativo e apenas interage com as ações humanas. Milton Santos considerava que a natureza é chata e perversa, mas pode ser mais adequado pensar que ela não é boa e nem má; ela apenas segue seu curso e passa a ser boa ou má para a humanidade à medida que ajuda ou atrapalha a sociedade.
          O processo de ideologização da natureza como forma inevitável à legitimação da apropriação privada dos meios de produção fez com que a maioria das esferas de discussão sobre o tema em questão deixasse de levar em conta os ciclos naturais do planeta que, é claro, resultam em conseqüências sobre os diferentes ecossistemas e aqueles que ali vivem (plantas e animais).
          A cada dia que passa a imprensa mundial noticia mais e mais catástrofes naturais (furacões, enchentes, terremotos, tsunamis) e suas conseqüências devastadoras sobre as cidades e as populações que ali vivem. E mal acontece uma catástrofe já é possível ver governantes e ambientalistas declarando que “a natureza está se vingando” e “o planeta está reagindo aos males que o homem vem lhe causando”.
          De fato, o que ocorre é uma transferência de responsabilidades dos problemas estruturais que ocorrem no ambiente construído para a natureza; e as mudanças – que sempre ocorreram ao longo da história da Terra – têm sido percebidas mais claramente porque a população do planeta nunca foi tão grande. Os recursos têm sido utilizados de forma nunca vista antes, e a superfície modificada de um jeito que nunca havia sido. Isso muda a repercussão dos fenômenos naturais e, por exemplo, uma chuva provoca alagamento e inundação porque o solo está impermeável. Mais gente vai morrer por causa de um furacão porque existe mais gente morando na área por onde ele passa e o homem pode até prever os fenômenos, mas não evitá-los.
          Diante da impossibilidade de controlar o clima, surgem as idéias a respeito do aquecimento global e, em seguida, propostas mirabolantes para tentar contê-lo, numa tentativa de se livrar da sensação de impotência, em busca de se sentir mais no controle da situação.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

          A influência do homem sobre a natureza e, em especial, sobre o clima da Terra é mais limitada do que se pode imaginar. O papel da humanidade sobre o clima pode ter reflexos em escala local ou regional, mas dificilmente isso se expande para o nível global. Contudo, a discussão ecológica é válida para alertar que o problema ambiental é sério, e não porque causará mudanças climáticas, mas sim porque mais pessoas sofrem a cada dia com os impactos dos fenômenos naturais sobre o ambiente construído e, assim, é preciso agir localmente.
          A idéia de controlar a natureza acaba atribuindo a ela um valor econômico, que está relacionado à escala de valores estabelecida pela sociedade para os bens que antes eram chamados de naturais. Isso faz com que as teorias alarmistas recebam mais atenção porque, em geral, são oriundas dos países desenvolvidos e acabam, muitas vezes, tornando os recursos naturais ainda mais valorizados.
          A visão de natureza que o homem contemporâneo traz consigo está longe de ser a ideal e atende exclusivamente aos interesses do modelo de desenvolvimento capitalista que se conhece. Em verdade, a natureza não é opressora, mas é utilizada para oprimir, já que aqueles que detêm o poder fazem com que os demais se sintam reféns da necessidade de conservar e acabem pagando um preço por isso.
          Uma mudança na maneira como a humanidade se apropria do meio ambiente e de seus recursos passa por modificações nas concepções de toda a sociedade. Uma nova visão do mundo deve corresponder a uma nova visão do homem, a uma nova visão social, na qual cada um se sinta parte dos problemas que podem estar afetando a sobrevivência da raça humana.

Juliana Ramalho Barros é Geógrafa, Dra. em Geografia com ênfase em Climatologia, Professora do curso de Geografia da Faculdade Projeção (Taguatinga-DF) e Pesquisadora Associada do Laboratório de Climatologia Geográfica da Universidade de Brasília.

 

ARTIGO EM PDF

Personal tools